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30 de abril de 2009

Guia de iniciação à produção de cerveja artesanal (1ª parte)

O principal objectivo deste blog é divulgar e incentivar o desenvolvimento da produção artesanal de cerveja, especialmente em Portugal, onde este fenómeno ainda está a dar os primeiros passos de uma caminhada, que espero que seja longa e de sucesso.
Muitos dos que por aqui passam são apreciadores de boa cerveja e curiosos em relação à produção artesanal que buscam mais informação sobre o assunto. O seu pensamento era o mesmo que eu tinha antes de me iniciar como cervejeiro, "tudo bem, até pode ser possível fazer cerveja em casa, mas deve ser um processo complicado e que envolve um grande investimento" o que os leva rapidamente a desistir ou a colocar de lado esta ideia.
Os meus próximos posts são dedicados a estas pessoas, aos que precisam apenas de um pequeno empurrão para se aventurarem no mundo do homebrewing. O objectivo deste e dos próximos posts será criar um guia, um manual onde abordarei tudo o que é necessário para começar a produzir cerveja artesanal, tanto a nível de conhecimentos teóricos, ingredientes, equipamentos, locais onde os adquirir e outros mais assuntos que entenda serem importantes para quem se quer tornar cervejeiro e surpreender os amigos com boas cervejas produzidas em casa.

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Para começar acho importante esclarecer algumas das dúvidas que assaltam os aspirantes a homebrewer, por isso cá vai.

.As cervejas caseiras têm a mesma qualidade que as cervejas industriais?
R.: Sim, as cervejas artesanais conseguem atingir patamares de qualidade iguais ou até superiores às ditas cervejas industriais. É claro que tudo vem com muitos conhecimentos, e acima de tudo com muita experiência. Outra das grandes vantagens de produzir cerveja artesanal é o facto de podermos criar cervejas de estilos que não conseguimos encontrar nos supermercados e nas lojas da especialidade. No meu caso em concreto nunca tinha provado uma Russian Imperial Stout, até ao dia em que produzi uma.

.Preciso de muito espaço para poder produzir cerveja em casa?
R.: Sim e não. É possível produzir cerveja em espaços reduzidos. Eu produzo cerveja num apartamento e o único espaço que preciso é da cozinha durante um dia inteiro e de um pequeno espaço para poder colocar o fermentador durante 3 a 4 semanas.
É claro que o ideal será ter um espaço exclusivo para a produção, como por exemplo uma cave, uma garagem ou um armazém, mas caso não o tenhamos, continua a ser possível produzir cerveja caseira.

.É necessário um grande investimento monetário?
R.: Não. Para começar a produzir não é necessário investir muito dinheiro. Há 3 formas diferentes de produzir cerveja artesanal, através de kits, extracto ou a partir de grão. Se começarmos pelo mais simples, os kits e extracto, não necessitamos de um grande investimento. Já para produzir a partir de grão é necessário investir algum dinheiro em equipamentos que são indispensáveis neste processo, mas não estamos a falar de valores exorbitantes. Mas deixamos este pormenor do investimento para desenvolver um pouco mais à frente.

.Onde posso comprar os equipamentos e ingredientes que necessito para me iniciar na produção artesanal?
R.: Em Portugal existem 2 lojas que vendem todo o equipamento e ingredientes necessários. Uma fica em Lisboa (Loja da Cerveja Caseira) e outra na zona de Coimbra (Loja Cerveja Artesanal). Para os que são de longe ambas as lojas fazem o envio pelo correio e por isso, em qualquer região do país terão sempre acesso a tudo o que necessitam. Escusado será dizer que ambas as lojas são de confiança e pertença de pessoas que produzem cerveja, e que concerteza os poderão ajudar em qualquer dúvida que tenham.

.São necessários muitos conhecimentos teóricos para me tornar num cervejeiro artesanal?
R.: Para começar a produzir não são necessários grandes conhecimentos, embora seja importante ter a ideia do processo e perceber qual é o objectivo de cada uma das suas etapas. É claro que o conhecimento não ocupa espaço, e quanto mais estudarmos melhor entendemos o processo de produção, e assim podemos aperfeiçoar as nossas cervejas e assim produzir cada vez mais e melhores.

.E por onde devo começar?
R.: Como já disse, existem 3 formas diferentes de produzir cerveja caseira. Os kits são a forma mais fácil de começar. Para além de exigir um investimento reduzido, é um processo bastante simples de executar e para o qual não preciso de ter grandes conhecimentos. O extracto é o passo seguinte, pois já envolve a utilização de lúpulo e algum grão. Por fim chega a produção a partir do grão, que é onde o cervejeiro produz uma cerveja desde o princípio, utilizando todos os ingredientes e passando por todas as etapas tal como se uma cerveja industrial se tratasse.
Quem vos escreve este texto não será o exemplo correcto a seguir, já que comecei logo a produzir a partir de grão. Apenas o fiz porque achei que tinha capacidade e conhecimentos suficientes para o fazer. Tive a oportunidade de trabalhar numa fábrica de cervejas e por isso já conhecia o processo do ponto de vista industrial, o que me ajudou muito a adaptar-me à produção em escala reduzida e com equipamentos menos avançados. Li bastantes livros e muita informação que procurei na internet. Também vi muitos vídeos no YouTube e por isso achei que estaria à altura desse desafio e por isso optei por me iniciar logo com o grão.
A forma mais simples e mais lógica de começar é, sem dúvida, através dos kits. Podemos dizer que 90% (ou mais) dos cervejeiros artesanais se iniciaram na produção utilizando um kit, mas a escolha é vossa.

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Depois de esclarecidas algumas dúvidas daremos então inicio ao nosso guia de iniciação à produção de cerveja artesanal.
Até breve!

18 de julho de 2008

A importância da higienização

A higienização é uma das maiores preocupações dos cervejeiros. O seu objectivo é eliminar ou, pelo menos, reduzir a níveis aceitáveis a quantidade de bactérias e outros contaminantes presentes no equipamento e utensílios utilizados no processo de produção de cerveja.
As condições óptimas que queremos proporcionar às leveduras, são as mesmas condições que as bactérias e outros microrganismos necessitam para crescer, por isso é importante higienizar, higienizar, higienizar…
E o que acontece ao meu mosto / cerveja se for contaminado por microrganismos indesejáveis? Estes microrganismos vão competir com as leveduras pelos nutrientes, neste caso os açúcares, presentes no mosto, limitando assim a actividade fermentativa das leveduras.
Da actividade destes microrganismos indesejáveis resulta também alguns produtos secundários que irão conferir à cerveja gostos e aromas indesejáveis. Um dos microrganismos contaminantes mais comuns é a bactéria acética. Esta é responsável pelo desenvolvimento de um gosto e aroma avonagrado, devido à intensa produção de ácido acético. Escusado será dizer que, uma vez contaminada, já nada há a fazer. Apenas deitar a cerveja pelo cano!
E como garanto uma correcta higienização? Resposta: limpeza e desinfecção. São dois conceitos bastante diferentes, mas que muitas vezes são confundidos. A limpeza consiste em remover a sujidade mais grosseira das superfícies que se pretende higienizar. Por sua vez a desinfecção consiste em eliminar ou reduzir a níveis aceitáveis, a presença de microrganismos nas superfícies a higienizar.
A ideia fundamental é limpar todos os equipamentos e utensílios que contactem com o mosto antes da fervura, e desinfectar todos os que contactem com o mosto / cerveja após a etapa da fervura. Isto porque, durante a fervura o mosto atinge temperaturas a rondar os 100ºC, o que garante a eliminação de qualquer microrganismo presente no mosto. Após a fervura e arrefecimento do mosto, todo e qualquer microrganismo presente irá desenvolver-se, por isso é importante garantir que os únicos microrganismos vivos no nosso mosto são as leveduras.
A limpeza pode ser feita recorrendo a água, detergentes e utensílios que ajudem a remover a sujidade mais incrustada. Eu tenho como prática habitual lavar todo o equipamento no final da produção, com a ajuda de uma esponja e detergente da louça. Tenho um cuidado especial em enxaguar bem no final para que não fiquem resíduos de detergente que possam prejudicar o meu lote de cerveja seguinte. Na produção seguinte tenho sempre o cuidado de passar tudo por água novamente para remover algum pó ou outra sujidade que se tenha depositado durante o armazenamento do equipamento.
No que diz respeito à desinfecção, muitos são os produtos que podem ser utilizados, ácidos, bases, à base de cloro, iodo, etc., muito há por onde escolher. A lixívia é um dos produtos mais comummente utilizados. A 5L de água adiciona-se uma colher de sopa de lixívia e assim consegue-se uma solução bastante diluída, mas que garante uma eficiente desinfecção. O único inconveniente é a necessidade de um enxaguamento abundante para que não restem resíduos de lixívia no equipamento, caso contrário poderá desenvolver-se na nossa cerveja um gosto e aroma a medicamento.
A maioria dos cervejeiros que conheço utiliza um produto chamado Chemiro Oxi, um desinfectante à base de oxigénio activo, que garante uma eficiente desinfecção e que tem como grande vantagem, o facto de não ser necessário um enxaguamento final. É, sem dúvida, um produto que aconselho vivamente, e que pode ser encontrado, tanto na Loja da Cerveja Caseira como na Loja da Cerveja Artesanal.
De nada vale utilizar os melhores ingredientes, o melhor equipamento, a melhor receita se descuramos uma etapa tão importante como é a higienização!
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Principais ideias a reter:
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Todo o equipamento a utilizar durante a produção deve ser limpo, tendo o cuidado de remover quaisquer vestígios de sujidade, gordura e detergentes.
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Todo o equipamento que entrar em contacto com o vosso mosto / cerveja após a etapa de fervura, deve ser desinfectado.
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E para quem quiser ler mais um pouco, aqui fica o link para um excelente artigo sobre limpeza e desinfecção na produção de cerveja:
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